A Noite
poema de Dino Campana | versão de Manuel A. Domingos
1.
Recordo uma velha cidade com torres e muralhas vermelhas, na tórrida planície interminável de Agosto, e a distante frescura de suaves colinas verdes ao longe. Uma enorme ponte vazia sobre o rio de pequenas poças sombrias, plúmbeas: negras silhuetas de ciganos que se movem ao longo das margens silenciosas; no brilho distante de um canavial, formas nuas e longínquas de adolescentes, o perfil judaico da barba de um velho; subitamente, da neblina junto à água morta, ciganas ecoam um canto, uma lengalenga primordial, monótona e irritante vinda do charco silencioso: o tempo suspenso.
em Orphic Songs, tradução do italiano para o inglês de Lugi Bonaffini, Bordighera Press, 2003, p. 46


