Imaginar a derrota
poema de David Berman | versão de Manuel A. Domingos
Ela acordou-me de madrugada, a mala junto aos calcanhares como um pequeno cão castanho. Sentei-me na cama e olhei pela janela para a neve que caía no bosque de carvalhos-negros. Tinha um bilhete de autocarro na mão. Depois levou algo escuro à boca, uma ameixa, pensei, mas era a bomba da asma. Procurei debaixo da cama os meus cigarros mentolados e perguntou-me se alguma vez pensava no cancro. Sim, respondi, mas sempre como uma árvore lá muito à frente, ao longe, onde mal se vê e pouco importa. E suponho que uma alma morta olhe para essa árvore, tão longe da sua carroça, que também pouco importa, a não ser como uma recordação ou um resto de água. Mas para acreditar em tudo isso, pensei, será preciso aceitar a premissa de que ela me acordou. em Actual Air, New York: Open City Books, 2003, p. 13


