O ESPECTRO, AINDA - algumas considerações a partir de Marx, Fisher e Losurdo
Ao regressar a Marx encontro sempre algo de actual, o que prova que a maior parte dos escritos marxistas estão datados apenas na data que trazem consigo, e não nas ideias. Um dos grandes desafios, de qualquer leitor de Marx, é fazer as devidas actualizações, isto é, não cair no erro mais comum da «cristalização de princípios e conceitos» (Cunhal: 1985, 22), uma vez que impossibilita a interpretação da realidade, porque ignora os novos conhecimentos e experiências.
Ler Marx e procurar entender aquilo que nos diz, à luz da nossa actualidade e experiência, é fundamental para um melhor entendimento do charco onde o “realismo capitalista” deseja que nós chafurdemos. Ignorá-lo é desprezar a sua evidente actualidade e importância, já que o pensamento de Marx é a «crítica teoricamente mais elaborada e politicamente mais intransigente desse sistema [capitalismo]» (Eagleton: 2021, p. 16). E é devido a isso mesmo que o neoliberalismo procura induzir, na opinião generalizada, que o marxismo faliu e perdeu validade, tendo nós assistido ao seu passamento e derrocada, quando na realidade o marxismo está mais actual do que nunca.
Do ponto de vista filosófico, o principal contributo de Marx reside na formulação da “dialéctica materialista”, isto é, na unidade entre dialéctica e materialismo, já que essa unidade nunca tinha sido apresentada de forma tão inovadora e consistente. O “materialismo novo” que Marx propõe (por oposição ao “materialismo velho” de Feuerbach), procura caminhos para uma efectivação da sociedade humana, abre outras possibilidades de desenvolvimento, causando desconforto nos interesses instalados, que se apressam a rotular de “utópicas”. Só que o utopismo não faz parte da visão marxista, uma vez que a concepção marxista não é uma doutrina, mas sim um método.
Marx apresenta-nos uma “ontologia terrena”, uma vez que está enraizada na vida e precisa de seres humanos para ser efectivada. Segundo Čeika, Marx desenvolveu uma crítica teórica que é simultaneamente uma prática revolucionária; e a sua prática revolucionária é simultaneamente uma crítica teórica. Resumindo, uma não existe sem a outra, pois a prática revolucionária apela às massas e por sua vez a crítica teórica leva às transformações sociais.
Todavia, a prática revolucionária e as transformações sociais estão intimamente ligadas às ideias de uma época, ideias essas que são determinadas pela classe dominante. Por exemplo, Mark Fisher estabeleceu que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Fisher considera que estamos todos mergulhados na TINA thatcheriana, e foi isso que impediu, em 2008 (aquando do resgaste financeiro a vários bancos), uma revolução. Fisher vai, assim, ao encontro de Marx, isto é, as ideias da nossa época continuam a ser as ideias da classe dominante.
Mas, há uma questão que merece ser respondida: por que razão não se sublevou a população em 2008?
Ben Gliniecki, num texto intitulado ‘Capitalist Realism’ and the errors of academic Marxism (bastante crítico do livro de Fisher), dá como resposta: “a consciência”. Segundo Gliniecki, “a consciência” é altamente conservadora e demora muito tempo a acompanhar a realidade. Assim, em 2008, “a consciência” levou a maioria da população a decidir que não estava disponível para uma mudança radical na sua vida, porque, no fundo, continuava a acreditar que estava tudo controlado por aqueles que, supostamente, deveriam estar a controlar. No fundo, todos tinham “a consciência” de que o colapso do sistema bancário levaria ao colapso da vida como a conhecemos. Também é certo que alguns exemplos de resistência foram brutalmente esmagados (lembram-se da Grécia?). Isso contribuiu para uma espécie de “esperar para ver”, que, no nosso país, culminou com os resultados das últimas eleições legislativas. E esses resultados irão apenas aprofundar as políticas neoliberais existentes, seja de uma maneira mais descarada, seja de uma maneira mais “reformista”.
A verdade é que os partidos sociais-democratas têm demonstrado impotência para resolver os problemas fundamentais da sociedade. As operações de cosmética levadas a cabo apenas adiaram o inevitável: o fortalecimento de partidos de extrema-direita, que são apenas, e tão-só, o rosto do capitalismo ao sentir-se ameaçado. A suposta ruptura que estes partidos apregoam será feita à custa do desmantelar do Estado Social, das suas instituições. Só assim o capitalismo e o neoliberalismo poderão ver os seus interesses atendidos e as suas operações asseguradas. Não é por acaso que, a cada dia que passa, ficamos a saber que esses partidos de extrema-direita são apoiados e financiados por grandes interesses económico-financeiros.
E é neste ponto que surge uma palavra que caiu em desuso e que aqui foi utilizada: “classe”.
Até ao início da década de 90 do século XX, a maior parte dos trabalhadores afirmava, de forma clara e inequívoca, a sua opinião política e a filiação (partido, sindicato, organização) como elemento fundamental para a distinção entre “nós e eles”, isto é, entre proletariado e capitalistas. Dizer que os trabalhadores pensavam e sentiam a sua classe não é exagero. No entanto, com o apregoada falácia do “fim da história” e as supostas “benesses” do capitalismo, a identificação com a classe, e também a sua afirmação, diluiu-se. Isso aconteceu fruto da promoção neoliberal do individualismo e empreendedorismo. A par disso, assumir publicamente uma opinião política, ou até mesmo uma filiação, começou a ser vista como algo que é do foro íntimo (“o voto é secreto!”) e que deve permanecer no foro íntimo, pois assim o “decoro” exige; decoro esse que é, muitas vezes, imposto por uma precariedade laboral que promove o medo. E como sabemos “Fear is the mind-killer. Fear is the little-death that brings total obliteration.” (Dune, David Lynch, 1984).
Ora algo que o capitalismo e o neoliberalismo há muito fomentam, e promovem, é toda a reescrita de determinado vocabulário, que cumpre o objectivo de higienizar a nomenclatura e léxico utilizados pelos governos e monopólios económico-financeiros. Rosa Maria Martelo disso nos dá conta: «De matriz economicista, esta novilíngua está por todo o lado (…)» (Martelo: 2013, p. 7). A verdade é que não é uma coincidência a utilização, hoje, do termo “colaborador” em vez de “trabalhador”. Existem duas razões óbvias: 1ª a tentativa de passar a ideia de que somos todos iguais e estamos todos no mesmo barco; 2ª retirar à palavra “trabalhador” a sua carga ideológica, porque onde há um “trabalhador” há um “patrão”. E onde esses dois elementos se encontram e cruzam, há antagonismo e luta de classes. Parafraseando Mark Fisher: quando a classe dominante propaga a ideia e diz que estamos todos no mesmo barco, é um claro sinal de que a podemos atingir, ferir e derrotar.
Estas questões de vocabulário levam-nos a pensar que existem palavras que são “dizíveis” e outras que são “indizíveis”. Domenico Losurdo faz uma distinção muito pertinente entre palavras “dizíveis” e palavras “indizíveis”, para questionar o vocabulário dominante.
A primeira palavra que aponta como “indizível”, nos dias de hoje (e segundo a ideologia dominante), é a palavra “comunismo”. Do lado das palavras “dizíveis” temos: democracia, liberalismo, neoliberalismo. Não será difícil de entender a inclusão, pela ideologia dominante, de “comunismo” nas palavras “indizíveis”. Começando pela ignorância (que ainda existe em torno do termo), e terminando em algumas atrocidades cometidas por supostos regimes socialistas (e não comunistas, como é ensinado), são várias as “razões”.
Mas o que dizer, por exemplo, da palavra “democracia”? Losurdo é bastante acutilante e radical, dando alguns exemplos. Se pensarmos que o partido que se opôs, até ao limite, à abolição da escravatura nos Estados Unidos da América, foi o Partido Democrata; que, após a abolição formal da escravatura, foi esse o partido que procurou de forma activa bloquear a emancipação dos afro-americanos, dando apoio ao designado movimento da “supremacia branca”; e se considerarmos todas as guerras iniciadas em nome da “democracia” e da sua expansão, mais o número de mortos daí resultantes; continuará “democracia” a ser uma palavra “dizível”?
E o que dizer da palavra “liberalismo”? O filósofo marxista italiano não nega que o liberalismo elaborou uma série de direitos individuais, mas não esquece que esses direitos apenas se aplicavam a homens brancos e proprietários. Acrescenta, também, que durante os séculos XVIII e XIX se assistiu ao enorme desenvolvimento da escravatura negra, em países cuja tradição liberal ainda hoje é fonte de orgulho para muitos. E não podemos esquecer que no final do século XIX, início do século XX, nos EUA (país que sempre se assumiu como farol do Ocidente liberal), começaram a ressoar palavras como “solução final e completa” para a questão indígena e negra. Continuará “liberalismo” a ser uma palavra “dizível”? E “neoliberalismo”?
A ideologia dominante tem vindo a impor e a promover estas palavras “dizíveis” como impolutas, livres de pecado, procurando que se esqueça toda uma história que as envolve e que deve ser tida em conta, já que o mesmo é feito para as “indizíveis”, aplicando aos outros o método que recusa ver a si aplicado, construindo uma espécie de neutralidade moral que lhe permite manter o monopólio do discurso, mas também da memória.
Ler, ou reler, Marx é mais do que apenas um exercício teórico, ou satisfação de uma curiosidade, tendo em conta «a sua relação connosco enquanto seus herdeiros (…)» (Dias: 2021, p. 39). A sua leitura e actualidade permitem desmontar o “realismo capitalista”, onde a consciência e a linguagem são terrenos de luta e transformação.
Recuperar palavras como “classe”, “trabalhador” e “comunismo” é pensar o mundo para além da lógica mercantil e da resignação neoliberal. Não é um acto de nostalgia, mas de lucidez, de coragem. É, contra todas as supostas evidências, afirmar que outro futuro continua a ser possível.
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Bibliografia
Eagleton, Terry (2021), Porque é que Marx tinha razão, tradução de Jaime Araújo, Edições 70.
Dias, Sousa (2021), Grandeza de Marx - por uma política do impossível, Lisboa: Documenta.
Fisher, Mark (2022), Realismo Capitalista, tradução de Vasco Gato, Lisboa: VS Editor.
Gliniecki, Ben (2018), ‘Capitalist Realism’ and the errors of academic Marxism, em https://marxist.com/capitalist-realism-and-the-errors-of-academic-marxism.htm, em linha no dia 16 de Junho 2025.
Losurdo, Domenico (2020), A Questão Comunista, tradução de Rita Coitinho, São Paulo: Boitempo.
Maia, Pedro Santos (2024), Quem pode ser no mundo tão quiteto?, Lisboa: Edições Avante!
Martelo, Rosa Maria (2013), «Questões de vocabulário» em revista Cão Celeste, número 4, Novembro 2013.


