O motor queimado
poema de Andrea Zanzotto | versão de Manuel A. Domingos
O motor queimou o seu sangue selvagem estrada fora durante muito tempo e aterrorizou as crianças. Agora, em baixo, treme junto à agonia do rio a caminho dos cais e dos mares. Sedento de pó e fogo como cavalo áspero, empinou-se ao entardecer; nas encruzilhadas das aldeias, sob falsos sinais, detinha-se e tacteava as fendas do abismo. Figura incrédula das estações de giz, de negros e precoces trovões, de casas atravessadas pelo crepúsculo por fendas e divisões com um vento assustador, esperei sozinho durante muito tempo; suportei janelas e praças invisíveis; gelo cortante minado pela febre algas e fontes desceram comigo até ao fundo na minha viagem: ampulhetas e quadrantes exaltaram-me nas pontes o abandono do mundo em montanhas devastadas pelas luzes das fronteiras. Oh, rodas e carros altos como a lua! Lua prateada de cinzéis subterrâneos vozes ténues tal qual as minhas cinzas e ruas que vi como precipícios, viajei sozinho num punho, numa semente de morte, atingido por um deus. em Selected Poetry of Andrea Zanzotto, tradução inglesa de Ruth Feldman e Brian Swann, Princeton University Press, 1975, p. 3.



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