Pregação
poema de Charles Simic | versão de Manuel A. Domingos
Este nosso calmo mundo está pronto para o fim — E mesmo assim o sol brilha, os pardais vêm Todas as manhãs às migalhas da padaria. Na porta ao lado, dois homens entregam uma cama a um casal recém-casado E param para admirar uma bicicleta presa num parquímetro. O dono está a fazer o almoço à avó doente. Aquece sopa e serve-a numa tigela. As janelas estão abertas, há uma brisa quente. Na nossa rua as jovens árvores deliram com as folhas. Na rádio há ópera italiana, o som está demasiado alto. Brevi e tristi giorni visse, canta o barítono. Todos os que pelo quarteirão passam conseguem ouvir. Algo sobre os dias que nos restam viver Sendo poucos e tristes. Mas hoje não, Maestro Verdi! No cabeleireiro uma rapariga salta duma cadeira, O cabelo loiro dá-lhe pelos ombros nus Enquanto sai porta fora nos seus saltos altos. “Tenho de ir”, diz o rapaz elegante à avó. A bicicleta está onde a deixou. Pedala indiferente pelo muito trânsito A camisa branca fora das calças a flutuar Muito depois de todos terem de repente parado. em The New Yorker, publicado no dia 1 de Março de 2010 [em linha no dia 14 de Janeiro 2026, https://www.newyorker.com/magazine/2010/03/01/preachers-warn]


